Skip to content
Jornal Alfredo Wagner Online
Jornal Alfredo Wagner Online

História – Sociedade – Informação

  • Código de Ética
  • Obituário
  • Biblioteca Blockchain
  • Autores
  • Política de cookies (BR)
  • Radar BR-282
Jornal Alfredo Wagner Online

História – Sociedade – Informação

A Direita Canhota do “Estado Papai Noel”

Jornalista Mauro Demarchi, 17/07/202617/07/2026
Patrocinador - Nome da Empresa

🔥 2 min 03 s lidos
⏱️ média: 1 min 01 s

Mudança estratégica de posição ou uma guinada eleitoral feita às pressas para conquistar um eleitorado resistente?

Há momentos em que a política parece abandonar a bússola ideológica e passar a funcionar como um aplicativo de navegação: recalculando a rota sempre que aparece um obstáculo. O novo plano apresentado pelo senador Flávio Bolsonaro para conquistar o eleitorado feminino — batizado de “Brasil por Elas” — parece ser um desses momentos.

O programa reúne uma cesta vistosa de promessas: internet gratuita para 70 milhões de mulheres, distribuição de celulares, vouchers para creches, aluguel social, microcrédito, inteligência artificial para atendimento e cashback para quem mantiver a vacinação dos filhos em dia.

Patrocinador - Nome da Empresa

Nada disso, isoladamente, é negativo. Proteger mulheres vítimas de violência, ampliar o acesso a creches e garantir autonomia financeira são objetivos legítimos. A grande ironia, contudo, é dupla: não se trata apenas de uma guinada ideológica da direita em direção ao assistencialismo estatal; trata-se da reembalagem de produtos que já estão nas prateleiras do Estado brasileiro há muito tempo.

O Velho com Nome Novo

A análise atenta das 12 propostas do “Brasil por Elas” revela um enorme exercício de rebranding (reposicionamento de marca) político. Quase tudo ali já existe na burocracia federal ou em programas de governos adversários, apenas sob outras siglas:

  • O “Cashback Ganha, Ganha”: A proposta de dar benefícios para mulheres que vacinarem os filhos ou fizerem exames preventivos nada mais é do que a clássica “condicionalidade” do Bolsa Família, pilar dos governos de esquerda desde a década de 2000.
  • Vouchers para Creche e Aluguel Social: São instrumentos que já operam em nível municipal e federal através do SUAS (Sistema Único de Assistência Social) e de programas de habitação, frequentemente criticados pela própria direita no passado como “votos cabrestos” ou inchamento do Estado.
  • Inclusão Digital e App Central da Mulher: A tentativa de unificar serviços digitais via Gov.br e expandir sinal de internet pega carona em projetos de conectividade universal e infovias que cruzam diferentes gestões do Ministério das Comunicações.

Durante anos, a direita brasileira construiu sua identidade na crítica ao Estado provedor, na defesa do teto de gastos e na ojeriza ao “assistencialismo”. Agora, um de seus principais nomes adota o mesmíssimo receituário de distribuição de bens e subsídios centralizados no governo. E, para não assustar a própria base, o senador ainda precisa vir a público gastar saliva explicando que não virou “feministo”.

O Cálculo da Bússola

A pergunta óbvia é: por que essas propostas aparecem agora?

O movimento é puramente pragmático. Os dados do Datafolha acendem o alerta vermelho na pré-campanha: uma rejeição de 53% entre as mulheres e uma desvantagem expressiva contra Lula nesse segmento (52% a 37%). Some-se a isso a recente crise pública com Michelle Bolsonaro, e o desenho está pronto. O “Brasil por Elas” não nasceu de uma súbita epifania social da bancada conservadora; nasceu da necessidade matemática de capturar votos em um nicho historicamente hostil.

Existe uma diferença entre mudar de posição por convicção e mudar de posição porque o relatório do instituto de pesquisa mostra que o seu teto eleitoral estagnou. Na política contemporânea, a fronteira entre evolução e cálculo costuma ser invisível, mas o cheiro de conveniência eleitoral é difícil de disfarçar.

Quem Paga a Conta?

Ao mesmo tempo em que acena para as mulheres com benesses, a pré-campanha tenta acalmar a ala ortodoxa garantindo que a essência conservadora permanece intacta — combinando a distribuição de celulares com propostas de castração química e discursos de guerra cultural. É a tentativa de equilibrar o prato:

“Podemos oferecer as políticas que vocês associam à esquerda, mas continuamos sendo a direita.”

Essa plasticidade expõe o esgotamento das velhas cartilhas. Governos de esquerda privatizam e flertam com o teto fiscal; governos de direita prometem celular de graça e subsídios. O problema real não está na direita descobrir a importância da rede de proteção social. O problema está em adotar a tese do “Estado Papai Noel” sem anexar a planilha de custos.

Internet para 70 milhões de pessoas e smartphones corporativos não caem do céu. Se o candidato promete abrir a torneira dos gastos para um grupo específico, a pergunta elementarizada pelo liberalismo econômico que ele mesmo defendia deveria voltar para assombrá-lo:

Quem paga a conta?

Esse é um dos pontos que frequentemente desaparecem quando a campanha entra em modo eleitoral. O benefício aparece no discurso. O custo fica escondido nas planilhas.

E há ainda uma outra questão: por que criar um pacote tão específico para mulheres? Se a internet é essencial para a inclusão social, por que não pensar em todos os cidadãos de baixa renda? Se a saúde preventiva precisa ser ampliada, por que não melhorar e fortalecer o sistema de saúde para todos? Se a burocracia dificulta o acesso aos serviços públicos, por que não simplificar o Estado inteiro?

A política moderna aprendeu a fatiar o país em fatias milimétricas — o Brasil das mulheres, dos evangélicos, do agro, dos jovens — e a entregar um carnê de promessas customizado para cada um. Flávio Bolsonaro percebeu que precisava cruzar a fronteira da sua bolha. Resta saber se o eleitorado feminino vai enxergar no “Brasil por Elas” um compromisso real com suas demandas ou apenas um plágio mal disfarçado de programas sociais antigos, embalado às pressas em papel de presente eleitoral.

Tempo de leitura5 min

Compartilhe isso:

  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
  • Compartilhar no Nextdoor(abre em nova janela) Nextdoor
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) X
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) Pinterest
Notícias Opinião Política Psicologia Sociedade

Navegação de Post

Previous post
Next post

Deixe um comentário

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.

©2026 Jornal Alfredo Wagner Online | WordPress Theme by SuperbThemes