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Direto de Brasília para o Jornal Alfredo Wagner Online
No estacionamento dos carros oficiais, enquanto ministros, parlamentares e assessores resolvem os assuntos da República, a vida segue em outro ritmo. Os motoristas, veteranos de muitos governos e muitas eleições, conversam enquanto aguardam novas ordens. Uns conferem o celular, outros tomam café em copos de plástico. E, como sempre acontece em Brasília, o assunto acaba dividindo espaço entre política e futebol.
— Viu essa história das alianças? — pergunta um, fechando a porta de uma caminhonete oficial.
— Vi… Está parecendo aquele time que passou meses contratando atacante e esqueceu de conversar com os laterais.
Risadas.
— Dizem que o Flávio entrou no campeonato achando que resolvia tudo na reta final.
Outro motorista, torcedor fanático, aproveita a deixa.
— Futebol e política têm uma coisa em comum. Não adianta ter um bom centroavante se ninguém toca a bola.
Como estava sem carro, cortei caminho pelo estacionamento oficial do Congresso. Parei para cumprimentar um amigo e a conversa me chamou atenção:
— O PP resolveu ficar neutro, disse o motorista de um Senador. O União Brasil também. Pelo jeito ninguém quis vestir a camisa.
— E olha que ofereceram até a vaga de vice para tentar convencer, completou meu amigo.
— Recusaram, não foi?
— Foi.
Outro motorista, que acompanha política como quem acompanha tabela do Brasileirão, comenta:
— Nos bastidores estão dizendo que essa foi a primeira derrota do campeonato. Lula fechou o elenco cedo. Juntou a turma da esquerda e ainda conseguiu deixar boa parte do Centrão sem entrar oficialmente em campo pelo adversário.
Outro balança a cabeça.
— É aquela velha história. Campeonato também se ganha no vestiário.
A comparação desperta novas lembranças.
— O pessoal do PL anda reclamando que faltou conversa durante o ano inteiro. Política não é só aparecer na campanha. Tem que visitar os clubes, tomar café, ligar no aniversário dos presidentes, mandar presentes…
— Igual dirigente de futebol. Só lembrar do técnico quando começa o campeonato não resolve, por isso nossa copa foi um fiasco.
Os celulares começam a apitar.
— E teve aquela confusão com o Ciro Nogueira… vocês ouviram?
— Pois é. Dizem que alguns esperavam uma defesa mais firme quando ele entrou na mira da Polícia Federal. A nota acabou sendo interpretada como distante demais.
Um motorista veterano, com a tranquilidade e a experiência de anos de prática, completa:
— Depois veio aquela história revelada pelo Intercept, envolvendo mensagens sobre o financiamento do filme. Aí ficou mais difícil convencer quem já estava desconfiado.
Um dos motoristas sorri.
— Brasília nunca perde uma oportunidade de complicar o que já estava complicado.
Todos riem.
— Agora estão dizendo que Republicanos e Podemos também devem seguir caminhos diferentes.
— Se continuar assim, a campanha vai depender quase só da estrutura do próprio PL.
O mais experiente do grupo, que já dirigiu carros oficiais em diferentes governos, encerra a conversa olhando para o relógio.
— Política é igual campeonato de pontos corridos. Muita gente acha que o título se decide na última rodada, mas, quando chega lá, descobre que perdeu o campeonato lá atrás, nos empates que pareciam sem importância.
Nesse instante surge um assessor na porta do ministério.
— Vamos Simão! O senador já terminou a reunião e te espera na porta do Congresso.
Os motoristas entram nos carros, ligam os motores e o estacionamento volta ao silêncio. Sigo meu caminho pensando no que ouvi.
Em Brasília, porém, todos sabem que a próxima conversa começa assim que os carros estacionarem novamente.