Em palanques políticos e manifestações após atos de convenção, o tom das declarações públicas costuma sinalizar a principal estratégia de campanha de um candidato. Em Santa Catarina, os duelos verbais entre o governador Jorginho Mello (PL) e o governo federal — intensificados recentemente em declarações diretas de parte a parte — evidenciam que a disputa estadual não se resume a um debate sobre obras locais ou indicadores de gestão.
A tese de que a força eleitoral de Jorginho está ancorada na figura de Luiz Inácio Lula da Silva — ou, mais precisamente, no forte sentimento de rejeição ao petismo no estado — levanta uma reflexão central sobre a dinâmica política de Santa Catarina.
O Antagonismo Nacional Como Pilar de Sustentação
Santa Catarina se consolidou nas últimas duas décadas como um dos territórios politicamente mais conservadores e anti-PT do país. Nesse cenário, o enfrentamento direto com a figura do presidente da República funciona para o governador como um poderoso catalisador político:
- Simplificação do Debate: Ao deslocar o foco das complexidades da administração estadual para o embate ideológico (“Santa Catarina versus Governo Federal”), a candidatura governista consegue unificar em torno de si eleitores de perfis diversos que compartilham a mesma rejeição ao governo central.
- Fidelização do Voto Ideológico: Para parcela significativa do eleitorado catarinense, a escolha nas urnas é guiada prioritariamente pelo posicionamento em relação à política nacional. Ao se colocar como a principal barreira contra o petismo no estado, Jorginho Mello blinda sua base de eventuais fissuras locais.
O Cenário Hipotético: E Se Não Houvesse a Bipolaridade Nacional?
A hipótese de um cenário eleitoral desprovido do fator Lula permite compreender como a polarização altera o equilíbrio de forças em Santa Catarina:
Sem a figura de Lula como contraponto ideológico e polarizador, a eleição estadual tendeu historicamente a ser decidida por fatores regionais: capilaridade partidária, tempo de TV e alianças municipais.
Se o embate nacional fosse desidratado da equação, a disputa no primeiro turno ganharia contornos substancialmente diferentes:
- Fortalecimento das Coligações Tradicionais: Cidadãos sem a forte motivação do “voto antipetista” passariam a avaliar com mais peso as alianças locais. Nesse contexto, a articulação promovida por adversários — reunindo partidos com vasta capilaridade de prefeitos e vereadores (como MDB, PP e PSD) — ganharia um apelo muito mais direto.
- Desagragação do Voto de Direita: Sem o imperativo da união contra um “inimigo comum” no plano federal, legendas de centro-direita e conservadoras teriam mais espaço para disputar o eleitorado de forma fracionada, aumentando sensivelmente a probabilidade de uma disputa em dois turnos.
- Pauta Focada em Gestão e Entregas: A discussão migrationaria de termos ideológicos para a avaliação fria de indicadores estaduais — saúde, infraestrutura e segurança pública —, campo em que a oposição encontra mais brechas para questionamentos técnicos.
Conclusão
A retórica inflamada contra o governo federal após atos partidários não reflete um mero rompante verbal, mas sim uma escolha estratégica calculada. Ao manter a figura de Lula no centro da cena política local, a pré-candidatura de Jorginho Mello garante a preservação do ambiente de polarização que o projetou politicamente.
A força do atual governador, portanto, não decorre isoladamente do tamanho das composições partidárias que o cercam no palanque, mas da sua capacidade de se manter como a principal referência do eleitorado antipetista no estado. Sem esse elemento unificador, o xadrez eleitoral catarinense seria consideravelmente mais fragmentado e imprevisível.
Lula não é apenas o adversário de Jorginho Mello, é o seu combustível mais eficiente. Sem essa contraposição diária, a disputa estadual se “desidrataria” para o debate técnico e de alianças regionais — justamente o terreno onde a oposição ganha mais força.