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Carga de imunoglobulina do SUS vetada pela Anvisa foi exportada ao Panamá

Imprensa, 11/03/202611/03/2026

Lotes avaliados em R$ 30 milhões foram repassados a empresa investigada por ligação com o PCC.

Lotes de imunoglobulina adquiridos para abastecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e posteriormente interditados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária acabaram sendo exportados para o Panamá após uma série de negociações envolvendo empresas privadas e o Ministério da Saúde.

A carga, avaliada em cerca de R$ 30 milhões, foi repassada pela distribuidora Farma Medical à empresa Insight Participações S.A. para quitar uma dívida. A Insight é investigada pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio em operações ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo o Ministério da Saúde do Brasil, a exportação foi conduzida formalmente pela própria Farma Medical. A empresa afirma, porém, que apenas transferiu a carga para pagamento de uma dívida e diz não saber qual foi o destino final do medicamento.

Medicamento seria usado por pacientes do SUS

A imunoglobulina é um medicamento produzido a partir do plasma sanguíneo, utilizado no tratamento de pacientes com deficiência no sistema imunológico e em algumas situações relacionadas ao HIV.

O produto havia sido adquirido pelo Ministério da Saúde por meio de um contrato de R$ 87,6 milhões firmado com a Farma Medical em caráter emergencial, para evitar desabastecimento do SUS.

Para viabilizar a compra do primeiro lote, a distribuidora contraiu um empréstimo de aproximadamente R$ 30 milhões junto à Insight Participações.

Produto foi interditado pela Anvisa

O acordo com o governo foi interrompido após a Anvisa determinar, em outubro de 2023, a interdição da carga. O medicamento chegou ao Brasil sem comprovação adequada de controle de temperatura durante o transporte — requisito essencial para produtos biológicos, que precisam ser mantidos entre 2°C e 8°C.

Inicialmente, a agência sanitária determinou a destruição dos lotes. Posteriormente, autorizou que a carga fosse devolvida ao fabricante, o laboratório chinês Harbin Pacific Pharmaceutical, sob a justificativa de que os produtos poderiam ser substituídos ou ressarcidos.

Carga foi usada para quitar dívida

Com o contrato cancelado e sem pagamento do governo federal, a Farma Medical assinou em setembro de 2024 um termo de quitação de dívida com a Insight.

Pelo acordo, a empresa transferiu à credora a propriedade e os direitos sobre os cerca de 31 mil frascos de imunoglobulina, permitindo inclusive que a Insight adotasse medidas junto à Anvisa e ao Ministério da Saúde para exportar o medicamento.

O documento é assinado pelo fundador da Insight, Himad Abdallah Mourad.

Empresário é alvo de investigação

Himad Mourad foi alvo de buscas na Operação Carbono Oculto, deflagrada em 2025 para investigar a atuação do PCC na economia formal.

Ele é primo de Mohamad Hussein Mourad, apontado pela polícia como um dos líderes da organização criminosa e atualmente foragido.

Posteriormente, Himad também foi citado na Operação Octanagem, investigação que apura suspeitas de adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro em postos de gasolina.

A reportagem tentou contato com o empresário e com a Insight, mas não obteve resposta.

Exportação envolveu outras empresas

Documentos obtidos pela imprensa indicam que a distribuidora Star Pharma participou do processo ao realizar cotações logísticas para o envio da carga ao exterior em 2025.

A empresa afirmou que prestou apenas “suporte técnico pontual” na avaliação de alternativas regulatórias e logísticas.

Nos registros oficiais de exportação, porém, apenas a Farma Medical aparece como responsável pela operação.

Destino da carga mudou

Inicialmente, os documentos indicavam que a carga seria enviada para a China, país onde a imunoglobulina foi produzida. No entanto, segundo pessoas que acompanharam o processo, a entrada do produto não foi autorizada.

Com isso, o medicamento foi encaminhado ao Panamá, onde permanece armazenado e com prazo de validade previsto entre junho e julho de 2026.

Multa e custos

O Ministério da Saúde informou que aplicou uma multa de US$ 1,69 milhão à empresa Prime Pharma LLC, representante internacional do medicamento.

A pasta também afirmou que o valor gasto pelo governo para armazenar o produto em um armazém em Guarulhos está em processo de ressarcimento, mas não divulgou o montante.

Tempo de leitura4 min

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