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A cidade testemunhou, nesta última quinta-feira, um dos momentos mais sublimes do calendário católico. A procissão de Corpus Christi, marcada pela presença de Dom Sérgio de Deus Borges — que, mesmo em meio ao luto pelo falecimento de seu pai, uniu-se ao Pe. Leandro, ao diácono Aguinaldo, ao seminarista Mateus e a uma multidão de fiéis —, reafirmou uma tradição que atravessa sete séculos de história.
Mas o que poucos sabem é que os tapetes coloridos e o ostensório que atravessa nossas ruas nasceram não de um decreto administrativo, mas das visões místicas de uma órfã belga e de um milagre que silenciou as dúvidas de um padre.
A Visão da Lua Incompleta
A história começa no século XIII com Santa Juliana de Liège. Aos 16 anos, Juliana começou a ter uma visão recorrente enquanto orava: uma lua brilhante, mas com uma pequena mancha escura, como se faltasse um pedaço para completá-la.
O próprio Nosso Senhor explicou-lhe o mistério: a lua representava o ano litúrgico da Igreja, e a mancha escura simbolizava a ausência de uma festa dedicada exclusivamente à honra do Santíssimo Sacramento. Jesus revelou a Juliana três motivos para a criação desta festa:
- Reaquecer a fé que estava esfriando e combater heresias;
- Oferecer nova força aos fiéis no caminho da virtude;
- Reparar as irreverências e sacrilégios cometidos contra a Eucaristia.
Durante 20 anos, Juliana guardou esse segredo, temendo a missão. Somente após muita resistência e lágrimas, revelou-a ao seu confessor, que consultou o arquidiácono Jaime de Threzis. Quis a Providência que este padre se tornasse, anos depois, o Papa Urbano IV.
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O Milagre de Orvieto e o Sangue no Altar
Embora o Papa Urbano IV conhecesse o desejo de Juliana, foi um evento dramático em 1263 que precipitou a decisão de estender a festa a todo o mundo. Um padre alemão, Pedro de Praga, peregrinava rumo a Roma atormentado por dúvidas sobre a presença real de Cristo na Hóstia.
Ao celebrar a missa em Bolsena, no momento da Consagração, a Hóstia sangrou, manchando o pano de linho (corporal) sobre o altar. O Papa, que estava na cidade vizinha de Orvieto, ordenou uma investigação. Ao ver o milagre, ele declarou: “Verdadeiramente, o Senhor está aqui”. O corporal de linho com as manchas de sangue é preservado até hoje na Catedral de Orvieto.
A Instituição Universal
Em 1264, através da bula Transiturus, Urbano IV instituiu a festa para toda a Igreja. Para dar à celebração a dignidade necessária, o Papa convocou ninguém menos que Santo Tomás de Aquino para compor o Ofício da Missa. Foi o gênio de Aquino que nos deu hinos que cantamos até hoje, como o Tantum Ergo (Tão Sagrados) e o Pange Lingua.
O Significado das Nossas Ruas
Como observamos em nossa cidade, a procissão é o “reconhecimento público de Jesus pelo mundo católico”. Onde a fé passa, o espaço público é santificado. A presença de nosso Bispo, do pároco e de todo o povo de Deus não é apenas um ato de piedade isolado, mas a continuidade de uma corrente que começou em um convento agostiniano na Bélgica e sobreviveu a guerras, revoluções e ao tempo.
Neste Corpus Christi, ao vermos o Santíssimo Sacramento passar, recordamos as palavras deixadas por Jesus a Santa Juliana: a Eucaristia é a fonte de vida e a força para caminharmos na virtude, especialmente nos momentos de dor e despedida, como os que tocam nossa diocese neste momento.
Nota: A celebração de Corpus Christi ocorre sempre na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, em memória à Quinta-feira Santa, dia da instituição da Eucaristia.
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