A tradição de confeccionar tapetes coloridos — feitos de serragem, sal, flores, borra de café e folhas — é uma das expressões de arte popular mais bonitas da Igreja Católica. Embora hoje esteja profundamente ligada ao dia de Corpus Christi, a sua origem é uma mistura de passagens bíblicas, herança medieval europeia e o sincretismo cultural no Brasil.
1. A Inspiração Bíblica e o “Cortejo Real”
A raiz espiritual dos tapetes remonta à Entrada Solene de Jesus em Jerusalém (que celebramos no Domingo de Ramos).
Os Evangelhos narram que o povo, ao receber Jesus montado em um jumentinho, estendeu suas próprias vestes e ramos de árvores pelo chão para que Ele passasse. Na cultura antiga do Oriente Médio, cobrir o chão onde uma autoridade passava era um sinal de submissão, honra e reconhecimento de que aquela pessoa era um rei.
Como a procissão de Corpus Christi é a única em que o próprio Jesus (na Hóstia Consagrada) sai às ruas, os fiéis entenderam que não se podia deixar o “Rei dos Reis” pisar o chão comum; a rua precisava ser transformada em um palácio.
2. A Origem na Europa (Século XIII e XIV)
Logo após a instituição da festa em 1264 pelo Papa Urbano IV, as procissões começaram a ganhar força na Europa, especialmente na Itália, Espanha e Portugal.
- As Flores em Roma: Em Roma, surgiu o costume da Infiorata (festa das flores). Os fiéis colhiam pétalas de flores de várias cores e criavam desenhos geométricos e quadros sacros nas ruas por onde o Papa passaria.
- O “Chão de Flores” em Portugal: Na região de Açores e no continente português, as pessoas começaram a cobrir as ruas com folhas de hinojo (erva-doce), giestas e pétalas de rosas para perfumar o ambiente antes da passagem do ostensório.
3. A Chegada e Evolução no Brasil
A tradição chegou ao Brasil no período colonial, trazida pelos colonizadores portugueses. O registro mais antigo e famoso dessa prática no país remonta à cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto, em Minas Gerais), no século XVIII.
No Brasil, a tradição ganhou características únicas:
- Adaptação de Materiais: Como não havia facilidade para conseguir tantas flores como na Europa, os brasileiros começaram a usar materiais mais acessíveis e locais. A serragem (sobra das madeireiras) passou a ser tingida com cores fortes; o sal grosso, o pó de café utilizado, a baga de cana e as sementes viraram matéria-prima.
- Trabalho Comunitário: O que era feito individualmente na porta de cada casa virou um esforço comunitário. As paróquias começaram a dividir as ruas por setores, onde famílias, jovens e pastorais passavam a madrugada inteira desenhando e preenchendo os tapetes.
Como Funciona a Tradição Hoje
Os tapetes são considerados uma “arte efêmera”, pois exigem horas (às vezes dias) de planejamento e execução para durarem apenas o momento da passagem do sacerdote com o Ostensório. Assim que a procissão passa, o tapete é desfeito, simbolizando que aquela beleza foi feita exclusivamente para Deus, e não para a vaidade humana.
Os desenhos geralmente trazem símbolos e temas teológicos:
- O Cálice e a Hóstia (Alfa e Ômega);
- A Pomba do Espírito Santo;
- Citações bíblicas e imagens de Nossa Senhora;
- Temas sociais atuais propostos pela Campanha da Fraternidade.
O Sentido Teológico: Por que eles são desfeitos?
Existe uma forte carga simbólica no fato de os tapetes darem tanto trabalho para serem feitos e serem “destruídos” em poucos minutos.
O Simbolismo da Passagem: Os tapetes são feitos exclusivamente para o Ostensório passar. Nenhuma autoridade, padre ou fiel caminha sobre eles antes do Bispo ou do Pároco carregando o Corpo de Cristo.
Após a passagem de Jesus Sacramentado, o tapete cumprirá o seu papel: o que era belo e trabalhado se desfaz sob os pés da comunidade que segue a procissão, lembrando a efemeridade da vida terrena e o desprendimento material diante do sagrado. É a comunidade oferecendo o seu tempo, o seu suor e a sua arte como uma oferenda viva.
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