🔥 25 s lidos
⏱️ média: 25 s
Há textos que nos informam. Outros nos emocionam. E há aqueles, mais raros, que fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Recentemente li um relato intitulado O dia em que virei bicho, da escritora Karen Valentim Alves. Confesso que o título me fisgou de imediato. Imaginei encontrar uma metáfora sobre algum momento de desespero ou perda de controle. Encontrei algo muito mais profundo: o relato de um parto.
Não pretendo resumir o texto, muito menos recontá-lo. Ele merece ser lido na íntegra. O que ele despertou em mim, porém, merece ser compartilhado.
Todos nós temos uma data de nascimento. Muitos sabem o horário exato em que vieram ao mundo, o peso, o comprimento e até quem foi o médico que realizou o parto. Alguns guardam fotografias do primeiro banho, da saída da maternidade, das visitas dos familiares. Mas há um detalhe curioso: ninguém se lembra do acontecimento mais importante de sua própria existência.
Nascer, a única lembrança que não temos
Todos nós nascemos. E, no entanto, vivemos como se esse momento pertencesse apenas às nossas mães.
Talvez por isso o relato de Karen seja tão impactante. Ele nos devolve uma realidade que preferimos esquecer. Antes do primeiro choro de um bebê, existe uma mulher enfrentando um dos maiores desafios físicos e emocionais que um ser humano pode experimentar. Não há discursos, nem ideologias, nem diferenças sociais capazes de apagar essa verdade elementar. Antes de qualquer profissão, nacionalidade ou crença, todos chegamos ao mundo pelo corpo de uma mulher.
O título do relato também merece uma reflexão. Quando a autora afirma que “virou bicho”, ela não está diminuindo a experiência humana. Ao contrário. Ela reconhece que, diante da dor extrema, desaparecem as convenções que organizam a nossa vida cotidiana. Já não importa a aparência, a educação refinada ou o papel social que desempenhamos. Resta apenas aquilo que somos em nossa essência: seres vivos lutando pela continuidade da vida.
Vivemos numa época em que gostamos de controlar tudo. Planejamos horários, agendas, carreiras e até a decoração do quarto do bebê. Mas a natureza continua lembrando que há momentos em que ela conduz a história. O parto é um deles. O plano ideal pode mudar em poucos minutos. O hospital escolhido pode não ser o que receberá a gestante. A sala sonhada pode dar lugar a outra completamente diferente. E, ainda assim, o essencial acontece.
Talvez seja justamente essa imprevisibilidade que torne o nascimento tão extraordinário. A tecnologia evoluiu, a medicina salvou incontáveis vidas e trouxe segurança para mães e filhos, mas há algo que permanece igual desde os primórdios da humanidade: o encontro entre a dor e a esperança. Enquanto uma vida luta para chegar ao mundo, outra encontra forças que sequer imaginava possuir.
Há também uma lição para quem escreve.
O relato de Karen não precisa recorrer ao exagero para prender o leitor. Não há frases feitas nem tentativas de fabricar emoção. A força do texto nasce da honestidade. Ela não romantiza a dor, nem tenta transformá-la em poesia artificial. Conta apenas o que viveu. E justamente por isso emociona.
Num tempo em que tantas narrativas disputam nossa atenção com títulos chamativos e emoções fabricadas, esse relato lembra que a verdade continua sendo uma das formas mais poderosas de contar uma história.
Ao terminar a leitura, pensei em algo que talvez nunca tenha considerado com a devida atenção: todos nós atravessamos esse instante. Nenhum ser humano escapou dele. O primeiro grande acontecimento de nossas vidas aconteceu quando ainda éramos incapazes de compreendê-lo. Talvez seja por isso que ele nos comova tanto quando alguém consegue descrevê-lo com sinceridade.
Antes da primeira palavra, antes do primeiro passo, antes da primeira lembrança, houve o primeiro choro.
E esse choro não marcou apenas o nascimento de um filho.
Marcou também o nascimento de um pai, de uma mãe e de uma nova história.
Nascimentos que mudam o mundo inteiro
Há acontecimentos que mudam o mundo inteiro. Outros mudam apenas um pequeno mundo, o de uma família. Mas, para quem os vive, não existe diferença. É naquele quarto de hospital, naquele abraço silencioso, naquele primeiro encontro entre mãe e filho, que o universo recomeça.
Nunca pensamos nisso, mas o nascimento é a mudança mais radical que um ser humano experimenta. Em um instante, deixamos o aconchego silencioso do ventre materno para descobrir um mundo de luz, sons, frio e gravidade. Perdemos uma casa, mas somos recebidos em outra: os braços da mãe. Talvez por isso o primeiro choro não seja apenas o anúncio de uma vida que começa. É também a despedida do único lugar onde vivemos sem medo.
E talvez seja bom que, de vez em quando, alguém nos faça lembrar de como todos nós chegamos até aqui.
Fique informado, tenha acesso a mais de 15 colunistas e reportagens exclusivas sobre Alfredo Wagner e região! Acesse Canal no Whatsapp do Jornal Alfredo Wagner Online aqui! Jornal Alfredo Wagner Online aqui!