Nas últimas semanas, dois debates sobre o Imposto de Renda dominaram a pauta. De um lado, a revelação de que deputados federais conseguem pagar até três vezes menos imposto que trabalhadores comuns, graças a verbas indenizatórias e benefícios que escapam da tributação. De outro, a promessa de que o trabalhador poderá ganhar até R$ 313 por mês com mudanças no imposto de renda. À primeira vista, o contraste parece apenas curioso. Mas, ao juntar as duas pontas, o que se vê é o retrato de uma justiça tributária seletiva, que alivia poucos e exige sacrifício de muitos.
O privilégio institucionalizado no topo
Deputados recebem salários oficiais de mais de R$ 46 mil, mas contam ainda com diárias, auxílios, cotas de exercício e ajudas de custo que, por serem classificadas como indenizatórias, não entram na base de cálculo do imposto. Isso significa que, em alguns casos, mesmo ganhando mais de R$ 90 mil por mês, apenas parte desse valor é tributada. O resultado é óbvio: a carga proporcional de quem legisla acaba sendo menor que a de trabalhadores assalariados sem nenhuma margem de manobra.
A distorção não é um “erro” do sistema. É uma construção legal. E por isso o problema é ainda mais grave: o próprio Estado chancela essa desigualdade, permitindo que os que detêm o poder formulem as regras de forma a se proteger.
A promessa simbólica do “ganhar R$ 313”
Enquanto isso, a reforma tributária em discussão traz a manchete de que trabalhadores poderão ter um alívio de até R$ 313 mensais. Trata-se, sem dúvida, de um avanço para quem vive com salários apertados. Mas, diante do quadro maior, o valor soa mais como um prêmio de consolação do que como verdadeira conquista. É uma medida pontual, de efeito limitado, que não enfrenta as raízes da desigualdade tributária.
O contraste que mina a confiança
Quando se colocam os dois cenários lado a lado, o efeito é devastador. Quem tem poder político acumula mecanismos legais para reduzir sua contribuição, enquanto o cidadão comum comemora um alívio modesto, dependente de aprovação e manutenção futura. Isso alimenta a sensação de injustiça: por que o trabalhador precisa se contentar com pouco, enquanto quem legisla cria brechas para si mesmo?
Esse contraste mina a confiança nas instituições e reforça a percepção de que a justiça tributária no Brasil é apenas retórica. É como se existissem dois sistemas: um, rígido e inevitável para a maioria; outro, flexível e generoso para a elite política.
O que realmente precisa mudar
Mais do que corrigir faixas ou oferecer pequenos benefícios, o Brasil precisa enfrentar de frente os privilégios do topo. A tributação de verbas indenizatórias que se transformam em renda disfarçada é um passo necessário. A transparência plena dos rendimentos parlamentares, cruzada com regras fiscais claras, é outro. E, sobretudo, é preciso aplicar de verdade o princípio da progressividade: quem ganha mais, paga mais — sem exceções.
Lançando a semente para um debate mais justo
Enquanto trabalhadores aguardam migalhas em forma de pequenos alívios, deputados desfrutam de uma blindagem fiscal que perpetua desigualdades. Uma reforma tributária que não toque nesse privilégio continuará incompleta, simbólica e incapaz de restaurar a confiança no sistema. Justiça fiscal não se faz com remendos. Faz-se com coragem para enfrentar privilégios de frente.
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