A política brasileira é feita de contrastes. E poucos sabem jogar com eles tão bem quanto Luiz Inácio Lula da Silva.
Depois de tantas campanhas e derrotas, Lula aprendeu uma lição essencial: para vencer, ele precisa de um antagonista radical.
Alguém que ocupe o extremo oposto do palco, falando grosso, empunhando símbolos de força, gritando onde ele fala baixo. É esse contraste que o faz parecer o homem do diálogo, o mediador sensato em meio à fúria.
Bolsonaro cumpriu esse papel com perfeição. Enquanto o ex-capitão vociferava contra tudo e todos, Lula aparecia como o político experiente capaz de “reconstruir o país”. A polarização o favoreceu — e ele a compreendeu como parte do jogo.
Mas Bolsonaro perdeu o controle do roteiro. Achou que o palco era seu e que não precisava sair no tempo combinado. O personagem engoliu o ator.
E Lula, político pragmático, sabe que a peça precisa continuar. Sem um novo radical, o drama não se sustenta.
É aí que entra Cláudio Castro.
Governador do Rio de Janeiro, até pouco tempo um nome quase desconhecido fora do estado, Castro surgiu com uma operação policial de grande impacto e altíssima letalidade. No calor das críticas, subiu às redes, defendeu a “mão firme contra o crime”, atacou a imprensa e atraiu simpatia da ala mais dura do bolsonarismo.
O que poderia ter sido apenas mais uma tragédia carioca transformou-se em palco de projeção nacional. Castro ganhou visibilidade, narrativa e, sobretudo, contraste.
O radical necessário apareceu.
Curiosamente, não faltam registros de Lula e Castro em gestos de cordialidade pública — sorrisos, eventos conjuntos, fotos de harmonia institucional.
Política é também teatro, e o palco muda conforme a conveniência do roteiro. Hoje, parecem aliados; amanhã, poderão representar lados opostos.
O público, como sempre, aplaudirá acreditando na peça.
Lula, hoje, tenta se manter como o “presidente sereno”, que não reage às provocações, que aposta no equilíbrio e na moderação. Para esse papel funcionar, o público precisa de alguém gritando do outro lado. Castro parece disposto a fazê-lo — seja por cálculo próprio, seja por força das circunstâncias.
No fundo, a política vive de antagonismos fabricados.
Como diz o ditado: “sem o louco do outro lado, o sensato perde o brilho.”
E é nesse jogo, repetido com novos personagens e velhos truques, que o país segue preso: um precisa do outro para existir.
🔗 Visualizar registro público
Fique informado, tenha acesso a mais de 15 colunistas e reportagens exclusivas sobre Alfredo Wagner e região! Acesse Canal no Whatsapp do Jornal Alfredo Wagner Online aqui! Jornal Alfredo Wagner Online aqui!