Pouco se sabe, com precisão histórica, sobre o soldado sepultado na localidade hoje conhecida como Soldadinho, no interior de Alfredo Wagner. O que se conhece está inscrito, em parte, na placa fixada junto ao túmulo e, em maior medida, preservado pela tradição oral transmitida ao longo de gerações.
Segundo a placa comemorativa, o Soldadinho teria morrido de frio durante uma travessia militar, após se separar da tropa que regressava da vila de Lages, por volta de 1859, quando já existia a primeira colônia militar de Santa Catarina. Exausto, teria parado para se aquecer, mas sucumbido às condições climáticas rigorosas da serra. Encontrado morto pelos companheiros, foi ali mesmo sepultado, dando origem ao nome do lugar.

Embora a placa cumpra importante papel memorial, parte de seu conteúdo apresenta inconsistências históricas e cronológicas. Ainda assim, ela marca o início visível de uma pergunta maior: quem foi esse soldado e por que passou a ser venerado como santo pelo povo?
Contexto histórico
A abertura da picada ligando Lages a Desterro representou um avanço significativo para o interior catarinense. O trânsito constante de tropeiros e militares levou o Império a instalar a Colônia Militar de Santa Thereza, na região de Catuíra, com o objetivo de garantir apoio e segurança aos deslocamentos.
Essa colônia recebeu, entre outros, soldados licenciados após a Guerra do Paraguai, muitos encaminhados por ordem do Duque de Caxias. As mulheres que os acompanhavam receberam autorização para se fixar na região, com auxílio financeiro para a viagem.
Santa Thereza, portanto, abrigava tropas em constante movimento, o que torna plausível que um soldado tenha perecido durante deslocamentos pela serra. Contudo, o relato mais consistente sobre o Soldadinho não remonta a 1859, mas sim a um episódio posterior.
A tradição oral e a Revolução Federalista
Segundo a obra Alfredo Wagner em Revista – Jubileu de Prata (1961–1986), organizada pelo Dr. Thiago de Souza, a narrativa mais difundida associa o Soldadinho à Revolução Federalista (1893–1895).

De acordo com esse relato, soldados derrotados fugiam de Desterro em direção ao interior, buscando refúgio na serra e seguindo rumo a Lages. Exaustos após dias de marcha, um deles — mais velho, mancando devido a um ferimento no pé, faminto e com frio intenso — ficou para trás nas proximidades do local hoje conhecido como Demoras.
Os companheiros só perceberam sua ausência ao alcançarem a fazenda de Nikolaus Kalbusch, onde receberam abrigo e alimentação. À noite, tentaram retornar em busca do amigo, munidos de tochas improvisadas, mas o frio e a escuridão impediram o resgate. Na manhã seguinte, encontraram-no morto, congelado, encostado a uma árvore. Foi sepultado ali mesmo, sob uma simples cruz de madeira.

Essa cruz passou a identificar o local do sepultamento e deu origem ao nome pelo qual o soldado ficou conhecido: Soldadinho.
O início da devoção
Com o passar do tempo, viajantes passaram a rezar junto à cruz, fazendo promessas e agradecimentos. Um episódio contribuiu para consolidar a devoção: ao ser derrubada a mata ao redor e ateado fogo para limpeza do terreno, tudo foi consumido pelas chamas — exceto a cruz que marcava o túmulo. O fato foi interpretado como sinal sobrenatural e intensificou a fé popular.

Na década de 1960, o túmulo foi reformado e cercado. Não há registro de exumação ou remoção oficial dos restos mortais.
As romarias diminuíram após a intervenção de um sacerdote que afirmou que o corpo teria sido levado por familiares, mas a devoção jamais cessou. Pessoas continuaram a visitar o local em silêncio, oração e gratidão.

Graças alcançadas
Relatos de graças multiplicam-se à medida que se conversa com os moradores da região. Um apicultor luterano contou ter feito uma promessa: a cada colmeia conquistada, acenderia uma vela no túmulo do Soldadinho. Em um ano, seu pequeno apiário cresceu de poucas dezenas para centenas de colmeias.
Outra devota relatou ter recorrido ao Soldadinho em oração pela saúde de uma amiga gravemente enferma. Casos como esses, repetidos em diferentes versões, sustentam a fé popular.
A posição da Igreja
A Igreja Católica nunca reconheceu oficialmente a santidade do Soldadinho. Um pároco local chegou a tentar dissuadir os fiéis da devoção. Já o Pe. Augustinho Kunen, pároco na época desta reportagem, adota postura prudente. Em conversa com este jornalista, afirmou:
“Rezamos no Credo: creio na comunhão dos santos. Mas, para alguém ser declarado santo pela Igreja, é necessário conhecer sua vida e passar por um processo longo e rigoroso.”
De fato, nada se sabe sobre a vida do Soldadinho: não há nome, documentos ou registros que permitam avaliar a prática de virtudes heroicas, exigidas para um processo de canonização.
Um santo do povo
Ainda assim, a devoção persiste. Para muitos, isso é sinal de que ali repousa alguém humilde, desconhecido dos homens, mas acolhido por Deus. A fé popular não reivindica títulos oficiais: contenta-se com a experiência de ser ouvida.
Este artigo, simples como foi a vida desse homem anônimo, é uma homenagem à memória do Soldadinho e à fé do povo que o cerca. Se for da vontade divina, que ele inspire e ilumine as pesquisas que ainda buscamos realizar, para que um dia possamos conhecer plenamente sua história — ou, ao menos, compreender melhor o mistério que permanece.

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