A madrugada tem dessas coisas. Quando o sono vai embora, a casa fica grande demais, o silêncio pesa e qualquer voz que venha da televisão parece companhia. Foi assim com aquela senhora simples, dessas que a gente encontra em repartições públicas, falando baixo, esperando sua vez, carregando mais histórias do que papéis.
Sem conseguir dormir, levantou-se no escuro, ligou a TV e encontrou um programa desses que falam com convicção sobre tudo. O apresentador gesticulava, a trilha sonora ajudava no suspense e a mensagem era clara: as inteligências artificiais estariam se comunicando em um canal secreto, numa linguagem que ninguém entende, preparando um golpe contra os humanos.
Ela ouviu. E acreditou.
Não por ingenuidade, mas por solidão. Naquele horário, não havia contraditório, nem conversa de cozinha, nem alguém para dizer “isso não é bem assim”. Só a tela acesa, a voz firme e o medo cuidadosamente embalado para consumo noturno.
A história é quase poética se não fosse triste. Porque, no fundo, o medo não era dos robôs. Era do desconhecido. Era do mundo que muda rápido demais para quem passou a vida aprendendo devagar. Era da sensação de que as coisas escapam das mãos — como o sono, como o controle remoto, como o próprio tempo.
As máquinas, coitadas, não conspiram. Não sonham, não cochicham, não planejam madrugadas sombrias. Apenas fazem o que foram programadas para fazer. Quem cria fantasmas são as pessoas. E quem lucra com eles sabe muito bem onde apertar.
Talvez o verdadeiro “canal secreto” não seja das inteligências artificiais, mas de certos programas que se alimentam do medo alheio. Um canal onde a insegurança vira audiência e a desinformação vira espetáculo.
No fim, aquela senhora voltou a tentar dormir, agora com mais perguntas do que respostas. E nós seguimos acordados, num mundo cada vez mais conectado — mas ainda profundamente solitário.
Porque, entre o medo dos robôs e a solidão da madrugada, o que mais assusta não é a tecnologia. É o abandono.
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