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As coisas que o tempo apagou: O fim das cartas de amor!

Já tentou escrever uma carta de amor em 2025?
Não vale e-mail, nem mensagem no WhatsApp com emoji de coração. Carta mesmo — daquelas escritas à mão, com tinta, papel, e talvez até um suspiro escondido entre as linhas.

Pois é. Se você nunca fez isso, talvez não saiba o que é amar com demora.

Nesta série, vamos visitar as pequenas grandes coisas que o tempo, apressado, foi deixando pelo caminho. Começamos por uma das mais belas: a arte de escrever cartas de amor.

Diz-se, com certo orgulho técnico, que vivemos a era da velocidade. As palavras, antes repousadas, viajam agora à galope pelos cabos invisíveis do mundo, atropelando vírgulas, esbarrando em sentimentos e chegando aos corações — se é que ainda os há — sem sequer bater à porta.

Antigamente, escrevia-se uma carta como quem costura uma esperança: escolhendo o papel (de linho, se possível), a tinta, a hora do dia, e até o humor da pena. Havia no ato de escrever um gesto cerimonial — quase um culto doméstico da alma. Dobrava-se o papel com delicadeza, selava-se com saudade, e o envelope partia como um navio de papel levando dentro o coração inteiro do remetente.

As cartas tinham cheiro — de colônia, de papel velho, de flor prensada entre as folhas — e às vezes um pouco de pólen da primavera passada. Esperava-se a resposta com o fervor de quem espera o trem da felicidade. E, quando ela chegava, tremiam os dedos! Abria-se devagar, como se ali dentro morasse o destino.

Mas vieram os e-mails. E com eles, o início da ruína. Já não se dobrava papel, nem se molhava selo, nem se perfumava a saudade. O botão “enviar” substituiu o carteiro, e a espera virou angústia de servidor fora do ar.

E por fim, o golpe fatal: os aplicativos. Sim, esses mensageiros instantâneos que transformaram o amor em “oi sumida”, a saudade em emoji, e o romantismo em notificação.

Quem, nos dias de hoje, escreveria: “Minha adorada, tuas palavras me chegaram como a brisa do outono, e repousaram sobre mim como a sombra das tílias na praça em que te vi pela última vez”? Ninguém. Em seu lugar, mandam-se três coraçõezinhos e uma figurinha de um urso segurando um buquê.

Eu, que escrevi cartas até casar-me — e me lembro ainda do cuidado em dobrar as margens, da ansiedade diante da resposta, e da emoção de reconhecer a letra amada no envelope —, olho para os amores de hoje e suspiro. Não porque sejam menores, mas porque lhes falta o rito.

E o amor, meus caros, precisa de ritos, de pausas, de demoras. Precisa da espera. Precisa do papel.

Talvez, num futuro improvável, quando se perderem os arquivos digitais e as mensagens evaporarem nos servidores do esquecimento, um rapaz encontre num baú a carta amarelada de seus avós — e entenda, finalmente, o que é amar com as letras e com as esperas.

Nota: Conteúdo publicado por colaboradores do Jornal Alfredo Wagner Online — rede independente de jornalismo comunitário e cultural.

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