Você não precisa ser comunista, socialista ou contra o capitalismo para achar que algo está errado quando quem trabalha muito paga mais impostos do que quem só aplica dinheiro e espera rendimentos. Na verdade, esse pensamento está longe de ser anticapitalista: é uma crítica perfeitamente compatível com a lógica de mercado. Em uma economia saudável, o capital deve circular, gerar valor, criar empregos, fomentar inovação. Quando fica “parado”, rendendo apenas com juros altos e garantias estatais, sem risco e sem reinvestimento produtivo, ele deixa de cumprir sua função mais nobre.
As reações ao novo pacote de mudanças tributárias proposto pelo governo federal têm sido duras — e compreensíveis. Afinal, estamos falando de medidas que alteram regras consolidadas do mercado financeiro, como a isenção para LCI, LCA, CRI, CRA, debêntures incentivadas e outros produtos de renda fixa. Mas, deixando um pouco de lado a gritaria das instituições financeiras e dos grandes investidores, talvez valha a pena refletir sobre uma pergunta simples: será que é tão injusto assim tributar mais quem apenas “deixa o dinheiro parado rendendo” no sistema financeiro?
Boa parte da população brasileira está longe de investir em títulos sofisticados. A esmagadora maioria dos brasileiros enfrenta dificuldades muito mais básicas: pagar as contas, comprar comida, buscar um emprego melhor. Só uma parcela pequena da população tem recursos suficientes para aplicar em investimentos isentos e deixar o capital rendendo, muitas vezes por anos.
Por isso, quando o governo propõe uma tributação de 5% sobre os rendimentos de aplicações como LCI, LCA e debêntures incentivadas — que, até agora, eram totalmente isentas — a grita vem justamente de quem conseguiu, com esforço ou herança, construir um capital e prefere mantê-lo aplicado, protegendo-se da inflação, da instabilidade e, claro, dos impostos. A crítica é legítima, mas não pode ignorar o fato de que esses instrumentos beneficiam poucos e movimentam menos a economia real do que investimentos produtivos.
O dinheiro que rende no conforto do banco ou da corretora é o mesmo que poderia estar sendo usado para abrir uma padaria, financiar uma startup, investir em tecnologia ou infraestrutura. São essas atividades que geram empregos, movimentam cadeias produtivas e ampliam a arrecadação de forma estrutural. Em outras palavras, quem investe na economia real movimenta o país; quem investe apenas em títulos está, muitas vezes, apenas protegendo seu patrimônio — e está no seu direito. Mas é razoável que esse tipo de rendimento seja tratado de forma privilegiada pela política fiscal?
Claro, ninguém gosta de pagar mais impostos, e não se trata aqui de demonizar o investidor. O que está em jogo é a lógica do sistema tributário: é justo que um trabalhador pague mais imposto sobre o salário do que um investidor paga sobre os lucros que obtém sem trabalhar? É justo premiar investimentos que pouco geram de valor social, enquanto a economia produtiva, cheia de riscos e obstáculos, continua sendo a que mais sofre com a carga tributária e burocrática?
Tributar investimentos não é, por si só, uma “caça aos ricos”, como alguns dizem. Pode ser uma tentativa legítima de corrigir distorções. A proposta do governo Lula não está isenta de críticas — especialmente no que diz respeito à forma como vem sendo apresentada, sem debate amplo e com impacto direto sobre o comportamento do mercado. Mas ela levanta uma questão que vale ser discutida com mais profundidade: qual é o tipo de investimento que o Brasil quer incentivar?
Se o objetivo é estimular a geração de empregos, inovação e crescimento sustentável, talvez seja mesmo a hora de rever os incentivos que o país oferece — e de onde o Estado deve arrecadar. O que não dá é para continuar protegendo ganhos de poucos enquanto os muitos continuam pagando a conta.
Nota do autor: Antes que me acusem de comunista, deixo claro: acredito no livre mercado, na propriedade privada e na importância do capital. Mas também acredito que o capital deve servir à economia real e ao bem comum — não apenas ao bolso de quem já tem muito.
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