Indústria prevê impacto severo em mais de 4 mil produtos, enquanto o Itamaraty alerta que sanções americanas podem minar o combate ao trabalho escravo no país.
SÃO PAULO e BRASÍLIA — O acúmulo de sanções comerciais impostas pelos Estados Unidos acendeu o sinal de alerta no setor produtivo e na diplomacia brasileira. A combinação da nova taxa de 12,5% com a tarifa prévia de 25% resultará em um acréscimo de 37,5 pontos percentuais sobre milhares de bens exportados pelo Brasil para o mercado americano.
Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as medidas afetam diretamente 4.187 produtos, que movimentam cerca de US$ 14,9 bilhões por ano em vendas para os EUA. O maior impacto recai sobre o setor industrial: 62% dos bens atingidos são insumos intermediários, cruciais para processos produtivos de ambas as nações.
Incerteza e paralisação de negócios
Além do custo direto, economistas apontam o estrago indireto causado pela volatilidade das regras comerciais impostas por Washington.
“Esse clima de incerteza já causa um prejuízo enorme, travando contratos e investimentos dos exportadores”, analisa Francisco Carlos, professor de Economia da Fipecafi. O especialista ressalta, contudo, que ainda há dúvidas operacionais sobre se uma cobrança pode vir a anular ou reajustar a outra ao longo da aplicação prática.
| Setores e Produtos Atingidos | Impacto / Alíquota Acumulada |
| Insumos Industriais (4.187 itens) | +37,5% em tarifas adicionais |
| Aço e Metalurgia | Sobretaxa de 50% + limite de cotas |
| Carne Bovina (excedente) | Tarifa de 26,4% + alegações do USTR |
| Açúcar (excedente) | Taxa fixa de US$ 357,60 por tonelada |
A resposta do governo brasileiro
A reação da diplomacia brasileira foi imediata. Em comunicado oficial, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, rebatou as acusações do USTR e criticou a postura unilateral de Washington, destacando que as sanções desrespeitam as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Esta investigação da Seção 301, e quaisquer ações que possam dela resultar, ameaçam minar o progresso alcançado pelas iniciativas brasileiras e comprometer os próprios objetivos declarados pelos EUA”, afirmou o chanceler Mauro Vieira.
O Itamaraty reforçou que o Brasil possui um dos arcabouços legais e fiscalizatórios mais avançados do mundo no combate ao trabalho análogo à escravidão, citando o aprimoramento constante do Código Penal e a efetividade da “Lista Suja” do trabalho escravo. Para o governo brasileiro, punições comerciais desmotivam os avanços institucionais conquistados no país nos últimos anos.